A Divina Comédia

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Há um certo inferno, um lugar de estatuetas de expressões eternas a que acresce a imagem emoldurada de um dia com o teu sorriso, que ali perdeu o som e se resignou a um trejeito de lábios.

Há um certo inferno no desejo perdido na aposta na mesa de jogo, como se fora um azar, ou posto propositadamente fora no saco do lixo para ser reciclado por uma máquina qualquer.
Há um certo inferno no silêncio que ficou depois das despedidas e que compensas com a injeção de música a servir de morfina para subir nas veias e temperar os nervos.
Há um certo inferno em ter falhado, em te ter falhado, em nos ter falhado, por não ter vocação para cuco do relógio, a mecânica do dia-a-dia por vezes parece insuportável e a vida é tão breve.
Há um certo inferno na canção que toca repetida na rádio, prometendo que “o sonho não acabou”, mas é apenas a magia da telefonia a iludir o ouvinte.
Há um certo inferno nos cristais que ganham pó, no cheiro a tuberculose dos livros antigos, nos tapetes persas puídos que perderam a ventura de voar.
Há um certo inferno nos sofás e cadeirões que convidam a indolência, que seduzem a vigília para desmaiar a razão no sono.
Há um certo inferno na cobardia de não dizer que te quero, que te amo, que compro os teus bolinhos por afeição, por ternura por ti, que importa o sabor, que importa o golpe de glicose que altere a balança da contabilidade clínica.
Há um certo inferno em não dar vida, em não sentir vida nas pontas de outros dedos.
Há um certo inferno nos sonhos colocados nas mochilas das crianças.
Há um certo inferno no teu sono precoce, demasiado prematuro para as promessas da noite, que nos poderiam estafar de álcool e de palavras até a manhã rasgar os olhos como quem deixa em pedaços a carta da conta da luz.
Há um certo inferno nas frases repetidas quando conversamos no final do dia, um diálogo de atores reformados.
Há um certo inferno na planta que a incúria deixou secar, que pereceu no vaso da varanda.
Há um certo inferno no tempo que corre um passo à frente, quando perdemos a passada para um transeunte mais ligeiro.
Há um certo inferno no shampoo que lava cada dia menos cabelos.
Há um certo inferno no teu medo, nas gavetas que fechas à chave, nas grades por detrás das portas, no alarme ligado à central de segurança, nas vezes que confirmas que o carro está trancado.
Há um certo inferno que tem defronte e visível, em dias límpidos, um certo céu…

O outono em Pequim, lembrando Boris Vian (08.10.2015)

As casas de cara pálida no sopé do monte, do outro lado do lago, pareciam espreitar-te, tendo nas janelas os olhos que a neblina tornava esforçados, castigando-os com miopia.
O Verão mostrou desdém ao frio alpino na blusa de algodão e nos calções que vestiste naquela manhã, depois de experimentares a temperatura amena do dia. Apreciava o cuidado com que decotavas o peito para se revelar subtil o rendilhado barroco do soutien.
Encostada à vedação, protegida pelo gradeamento de ferro, com o braço estendido no corrimão de madeira, estás em pose, ao jeito do membro da família real expondo-se ao génio de Velásquez. O fotógrafo terá apenas que enquadrar-te na paisagem e premir o botão da máquina. O pintor da corte espanhola precisaria de mais tempo para gravar a memória das pessoas, escolhendo as tintas, apurando as cores, jogando com a luz e as sombras, criando uma narrativa espacial em que evoca a sua presença invisível, reproduzindo os olhares de tédio ou de alegria, aceitando ser possível colocar na tela emoções, admitindo que as pessoas não são naturezas mortas, disseste a sorrir.
Tens a pele tostada pelos séculos de sol do hemisfério sul, o cabelo crespo feito de ondulação marítima e trazes ao pescoço o fio que segura o crucifixo, um reflexo dourado, o lampejo da fé em que mora esse otimismo que às vezes faz com que a bola que bates no chão seja o mundo antes de o lançares ao cesto.
Olhas o céu, destapado de nuvens, o azul infinito, e os pequenos olhos de azeitonas negras dirigem-se e agradecem a Deus o empréstimo deste horizonte, o proprietário dos chãos delimitados por fronteiras nascidas dos castigos babélicos, represália ao atrevimento humano de outrora se comparar aos deuses e ousar disputar os seus poderes.
Ontem sonhavas que o vento selvagem nos arrastou, sem resistência, quais folhas caídas, sem vontade autónoma, que esvoaçam e chegam a uma povoação estranha, ao cenário da história. Uma localidade que poderia ser o observatório da evolução de Darwin, não tivesse preferido estudar as tartarugas nas Galápagos ao invés da feitoria africana. Optasse pelo pingo de sémen que contém a aleatoriedade confundida com a ironia do destino e poderia antecipar as sementes do mal e da benevolência na viscosidade branca.
Mais adiante a cantora esforça a voz, estica a garganta para projetar o som, a ganhar eco na planície. Não percebes o que diz, mas o timbre torácico é muito agradável. Agarras a mão dele, para agitar o desejo, desde os pés irrequietos até ao desdém de quem se ri do dia de amanhã. Invejável essa tranquilidade com que imitas as crianças, a quem importa o salto que dão agora, a corrida que não tem pressa, os miúdos que ficavam a beber as tardes por um imenso copo a que juntam na água fresca a doçura da groselha.
Estavas a gracejar dos botões de alumínio do casaco do indivíduo com cara de porco de mealheiro e fazias dele o comboio suburbano que exala o suor do fim do dia. És a Lineu das espécies periféricas, distinguindo o ramo da botânica que se interessa pelas plantas que florescem dos excrementos fétidos.
Outras vezes procuras os erros, a perna algemada a um poste, busca tresloucada de vestígios de lugares por onde não passaste. Há muito que deixaste de maquilhar as cicatrizes, mas não faz mal demonstrar a inabilidade dos cirurgiões. Hoje preferes o salto perfeito para a piscina, desafiando a gravidade a partir do trampolim mais alto, evitando inquietar a água, e ficas a saborear a doçura do suicida submerso. Deixas de ser vista, como se quisesses sair do mapa, despistar a crueza do tempo, disfarçar a existência e confundir os capatazes das máquinas da linha de montagem diária.
A noite cai e é hora de desligar a câmara de vigilância interna, adormecer a consciência de si, converter os ruídos do outono em Pequim numa canção polifónica, numa anti narrativa, fazê-los vibrar no improviso do free jazz, de maneira a que se pudesse agradecer a Boris Vian as estórias que escreveu, que amávamos assim que conhecíamos aquele mundo que ora contraía ou dilatava ao ritmo da dor ou na sua ausência, traduzindo a cada dia a língua estranha que protegia a obra de visões vulgares.
Dizes adeus, com um aceno simples. Não ficou nada por declarar?

Boris Vian

Tudo de nós (em memória do meu amigo JPMC) – 26.10.2015

Sempre que se aproxima o Natal lembro-me de ti, João Pedro, menos dos momentos em que a doença te desfiava o corpo em pedaços, peças tóxicas de frango que caíssem na sopa dos indigentes, mais do teu rosto, que devia estar centrado na pintura de arte sacra a representar a bondade. O som do teu riso emudeceu na memória e como gostaria de o recuperar. Consigo ainda ver a tua face de menino sorridente, uma descrição que guardo ao lado das lágrimas que nunca se choram suficientemente por quem se ama. Passados trinta anos ainda me fazes subir para o cavalo de cimento e galopar por territórios de perigosos inimigos. Ao fundo da rua passou uma estrada que cortou o acesso às ilhas que todas as férias conquistávamos, a antiga pensão que servia de quartel e o quintal de árvores de fruto deram lugar a um prédio. A nossa cidade perdeu a aldeia que conhecíamos. As árvores foram arrancadas e o largo perdeu as marcações do campo de futebol e as sombras que protegiam do sol quando o Verão nos abandonava como rafeiros à nossa sorte. Desapareceram os recantos em que sentíamos o odor das meninas e nos admirávamos das formas que iam ganhando. Creio que naquela altura não nos ensinavam a ser competitivos, mas a lição de aprendermos a ser felizes.

Durante anos esperava que tocasses a campainha da casa da minha avó, para irmos para a rua. Mas o teu dedo, os teus dedos ainda pequenos, as tuas mãos, os teus pés desajeitados com a bola, nunca apareceram naquela porta verde. Descia os degraus a correr, mas nunca eras tu, nem o teu sorriso e a alegria de me sentires teu irmão.

Quando te falei do João Pedro não te contei da bagagem frágil em que a morte dele me tornou, incapaz de estar à mesa no encontro dos colegas da turma da escola em que nos conhecemos. Saí da sala para aguentar a dor sozinho, a experiência do sofrimento partilhada parece ser uma indignidade, bem o sabem os cães que se afastam dos donos para desfalecer entre as flores. Talvez tivesse vergonha de não ter transformado em raiva a mágoa da traição que te abateu, crueldade que devia ser vingada. Mas como? As imperfeições moleculares, as degenerescências celulares podem ser imputadas ao big bang? Enfim meu querido amigo, guardo uma cana com a ponta como a afiávamos, pode ser que encontre o bicho malévolo que te corrompeu a carne e deixou a tua mãe no pranto incontido, um desespero quase do tamanho do amor que ela te tinha, eras o rapaz terno que abraçava a humildade que a vestia, que beijava as rugas que o cinzel dos anos árduos marcaram no rosto.

Outros de nós tornaram-se homens que pareciam cães a quem bastava um lugar para recostar o saco de ossos prestes a rasgar-se. O sol e algum calor serviam para sentirem conforto e estarem em tácita aliança com a grandeza do cosmos. Não eram o exemplo das figuras de família, embora alguns tivessem filhos. Sem remorsos de os terem deixado com as mães. Pensavam neles e como cresciam e o que um dia podiam ser. Saltimbancos a calcorrear bares, o vinho barato a queimar-lhes a laringe, a cirrose a doer nas folhas soltas em que alinhavam as cartas de despedida. Se tivéssemos as tardes desocupadas, depois de dormir todos os sonhos, até que o sono já fosse um cansaço, a lassidão pediria violência, uma rixa, desafiar as probabilidades no jogo da roleta russa?

Muitas das moças deixaram que durante a noite lhes roubassem o brilho dos diamantes que rodeavam o pescoço, as pétalas secaram no fim precoce da Primavera. Quando retiravam o colar de folhas mortas, sentia-se o hálito da deceção, a morte tem esse cheiro a um pedaço de carne há muito encravado no dente destruído, um cadáver adormecido na parede erodida da fortaleza militar deserta. Vemo-las tristes, conformadas com o resultado inesperado do destino, o relógio parou e não deram conta que o tempo, apesar do falhanço da tecnologia relojoeira, passou, andou às voltas, a esvoaçar com as asas em desalinho de um pássaro louco, trajado de fraque, para enegrecer a cerimónia e acicatar a superstição que os animais pressentem nos olhares humanos.

Pesa apenas umas gramas a fotografia que tenho mão, mas numa outra balança, se houvesse medição para a saudade, esta imagem em que te visito seria uma bola de chumbo, um planeta inamovível. João Pedro, meu querido amigo, é para ti o meu primeiro postal deste Natal. Uma parte de tudo de nós.HBosh

Minúsculo ensaio sobre a cegueira. (25.06.2015)

Sentia que os olhos estavam a perder a luz na medida em que desfalece o branco pálido dos antigos candeeiros de bairro periférico que enganavam a penumbra para ajudar os embriagados a encontrar a viela e a porta de casa e para proteger as jovens enamoradas dos avanços dos homens, das mãos pesadas que procuravam no desatino da pulsão o território que não sabiam ser de prazer se de descompressão da violência e da frustração a que a fúria dos dias os subjuga.

Sentia que um dia deixaria de ver por doença da córnea, uma lesão ocular a fazer de castigo divino, basta reencontrar Orfeu a trair o compromisso com os deuses no resgate da amada Eurídice. Foi autorizado a baixar às catacumbas e a trazer de volta a apaixonada, mas se a olhasse na subida à superfície perderia a visão e a mulher. Afinal seria a punição pela luxúria do visível. Uma parcela do pecado da paixão pelos seres, pelas coisas, pela materialidade, pela lascívia do objeto. Não mais poder ler as linhas de Borges, ele que amava reler as de Verlaine e cegou, também por esse castigo do excesso, pela gula da leitura e pela tentação desenfreada do conhecimento.

Sentia que um dia o nascer do sol não teria mais a dissolução mágica da neblina pelo calor suave da alvorada, o colorido do céu a amarelo baço, à imagem do astro ainda ensonado e longe do fulgor que vai aparecendo ao correr da manhã. A aurora deixa de ser um primeiro clarão, torna-se uma picada de inseto, um rubor quente na pele, um assédio à temperatura do corpo, uma graçola indigente para anunciar o novo dia.

Sentia que perdia de vista as paralelas, as formas geométricas, os padrões dos tecidos, dos azulejos, os desenhos dos porta-lápis, as figuras mitológicas nos edifícios, os ornamentos que engalanam o espaço público, a caligrafia que o teu pulso torna tão precisa e revisita as mesas da escola primária que foram mingando enquanto nós crescíamos. Nesse tempo gostávamos de ler os trechos no manual de português e dos intervalos que a professora fazia para suspender o movimento de rotação do planeta e a aula se quedasse na absoluta mudez, para que a pureza sonora do chilrear dos pássaros não fosse maculada pelo agitar de folhas e pelas vozes de fundo do universo. Esta tarefa do silêncio não era avaliada, desconhecíamos a importância de saber escutar, dos prazeres quase recônditos que chegam pela transmissão do som. O murmúrio da água, as onomatopeias que cantam as marés quando o caudal embate na madeira dos barcos, o rugido do vento que traz a crueza do norte, a sinfonia de pius e zumbidos das noites campestres de Verão. A canção polifónica da cidade, a enxurrada de gente que corre pelos passeios certa do destino que persegue, milhões de conversas telefónicas, saudações de circunstância como se estivessem pré-gravadas, motores dos carros a chupar a gasolina, buzinas e sirenes erráticas, sinos de igreja de pancadas abafadas pela sobreposição das exclamações perturbadas dos amantes a escorrerem a libido nos quartos sombrios de pensões esconsas.

Sentia que a dor do ecrã negro no fim do filme seria eterna. Que da despedida na gare da estação não ficaria mais do que a simulação do silvo do barco intercontinental que parte para o novo mundo. Já não te via há tantos anos. Sei que não mais estarei contigo. Percebemos que as pessoas mudaram e que nos tornaram figuras de galeria, personagens obsoletas, daquelas que arribam aos programas televisivos de domingo, na qualidade zombada de excentricidades do passado. As testemunhas vão morrendo e é preciso fazer prova com as fotografias de que eras mesmo a Ginger Rogers, a dançar em Top Hat, com o imenso cabelo ruivo cacheado, o vestido longo que não impedia os passos rápidos e ágeis, e os desmaios nos braços do Fred Astaire.
Dizemos adeus, como no filme de Fellini. Cada um mergulha na doçura das memórias que recolheu nas árvores de fruto ou nos silvados repletos de amoras. Depois, serão alimento do lento suicídio, a fazer lembrar o James Cagney a sorrir para a câmara de filmar, com uma malícia estranha no rosto, a de quem sabe que vai ser abatido à bala assim que entrar pela porta do antro de criminosos.

Sentia que a cor do vinho deixaria de brilhar por detrás do copo de cristal. A chuva a cair na terra xistosa e o ardor da canícula a fustigar as folhas verdes das parreiras fazem parte da misteriosa alquimia vinícola, a natureza infiltra-se na uva e atribui ao vinho o sabor, o odor e a coloração. O chão e o clima são a alma e a uva e o vinho, o corpo e o sangue. Desculpas-me ter de tatear para brindar contigo ao futuro e à saúde. Não te vejo. Sei-te aí, ao lado.

Sentia, pouco a pouco, que os principezinhos desdenhados e remetidos à literatura infantil, seres andróginos, sem masculinidade para treparem na opinião popular à condição de heróis, teriam razão: o coração vê melhor que os olhos, e que o espírito das pessoas e das coisas, o essencial, é invisível. A glória de Antoine de Saint-Exupéry caiu por acidente no imaginário da humanidade, disseste a rir.

Sentia o teu perfume a adormecer-me com as propriedades de um narcótico, uma cocaína intangível, incolor, um mistério de átomos flutuantes, a gozar com o princípio da gravidade, partículas a manterem-se à altura do nariz, a alienarem a âncora que fixa o presente e a levarem o hipnotismo a um extremo do prazer. O Addict, da Dior, condensa no frasco histórias que queremos que as peles das mulheres contem. Ainda que as saibamos, que as repitam então. A fragrância da praia antiga, das férias na pensão em frente ao mar, os avós sentados e sem pressa, as sandálias de couro alaranjado que hoje pareceriam miniaturas, o livrinho dos passatempos, o protetor solar a perder gordura com a água das ondas, o mono-motor a roncar no céu, o litoral recortado de praias de areia branca, os cuidados e as atenções, esse amor que tememos curto com os avós, a menina que sorri no corredor de tetos estucados.

Sentia a cerveja a dissipar as dúvidas, a saciá-las com o lúpulo e o malte. A espuma dos dias pode bem ser a que emerge no copo. Sabia na letra de uma canção dos Doors que o futuro é incerto e o fim está sempre próximo. Podia roubar um carro e ir para Las Vegas. Morrer em Las Vegas no modo extravagante da personagem do Nicholas Cage. Se não desfalecer com heroísmo que seja bêbado, com a alma cirrótica. Viva Las Vegas, exulta Elvis Presley, pede sorte, coração forte e nervos de aço. Viva Las Vegas, Viva Las Vegas…cegos

PELA ESTRADA FORA (17.06.2015)

Naquele tempo o estômago da carteira que trazia no bolso direito dos jeans estava tão vazio como o do bicho faminto. Eu vestia umas calças de ganga coçadas pela água e um casaco herdado de um tipo a quem os ombros crescidos deixaram de caber naquela pele. Por essa altura, abria os livros e operava os conceitos na sala de cirurgia hermenêutica da universidade. Extraía a melancolia de um autor, diagnosticava o sentido segundo num outro. Saciava o sono numa cama estreita da residência universitária, um imóvel sóbrio, ao estilo da arquitetura utilitarista. No primeiro covil vivi com uma matilha que somava sete espécimes. Saíamos para nos alimentar com a sopa da cantina, um caldo de massa dissolvida, servido na malga metálica, modelo austero dos refeitórios penitenciais. Trazia sempre comigo o frasco de Tabasco. Toda a comida sabia a fronteira, a do México com os Estados Unidos. Vertia-o na sopa e deixava que o picante tomasse a falta de sabor da carne, do peixe, ou qualquer outra mixórdia da linha de produção de refeições daquela oficina alimentar.

Às vezes pegava nas cartas e beneficiava da cumplicidade dos naipes para sacar alguma nota aos parceiros do jogo. Trocos que corrompiam a dieta diária num tasco de portas de saloon, mesas grandes e bancos de madeira corridos. Podia comer qualquer coisa que não precisasse e soubesse a Tabasco. Um homem grande, vermelhusco, atendia a clientela, quase todos alunos, e perguntava, sem amabilidade, o que se queria comer. Responder era desperdiçar oxigénio. Da cozinha vinham baratas e o prato único. Conhecido o enredo da peça patética divertia-me a assistir ao indivíduo sanguíneo irritar-se com o estreante incauto que pedia para consolar o apetite qualquer coisa diferente da programada para o dia.

Quando sentia tilintar as saudades das cadeiras de palhinha e do vento a agitar os cortinados, vinha a casa. Não tinha dinheiro para embarcar naquele motor a diesel invadido pelo enxame de miúdas tagarelas. Aborreciam-me as conversas ruidosas, que formavam uma nuvem de sons impercetíveis, uma eterna buzina a tatear o caminho e a chegar aos quartos de paredes finas, que muito incomodava os hóspedes. Colocava a roupa na mochila, descia pela encosta de vegetação maltratada e esperava junto à estrada por um carro, em frente à casa em que vivia uma família cigana que não se preocupava com a minha presença, tratando das suas coisas, andando de lá para cá, como se para eles fosse invisível.

O tipo que motivou a boleia era já um veterano da estrada. Um ex-militar que arranhou a recruta numa casa de pasto de azulejos besuntados pela respiração do óleo das frigideiras queimado pelo gás dos fogões. O serviço militar soava, na voz dele, a um tempo estúpido, imóvel na parada, embrutecedor nas horas da capina, disciplinado por uma hierarquia possuída pela tensão sexual advinda do enxovalho e da humilhação. Quando falava da arte no quartel escutavam-se as habilidades do aparelho digestivo, que podem concitar atenção e aplauso igual ao rodar das bolas nas mãos do malabarista experiente.

Na altura desconhecia Jack Kerouac, não tinha entrado nas páginas dos livros sobre os gajos que atravessavam os Estados Unidos, de uma costa à outra, à procura de trabalho, de amor e de curtir a aventura. A influência da literatura não instruiu a boleia.

Não existe, aliás, manual de instruções. Aprende-se a colocar as botas de solas corroídas nos entroncamentos, nas pistas de desaceleração, os portos seguros de acostagem para os veículos. Aprende-se a esperar. O tempo suspendia-se na tutela de Zéfiro, Dianas seminuas traziam espigas no regaço, amazonas cavalgavam sobre o dorso rijo dos cavalos selvagens, cães vadios rosnavam pela posse do osso do javali, saqueadores alados cobiçavam os bens ridículos que trazíamos aos ombros.

Fazia mais de 200 quilómetros sobre o alcatrão. Distância que dava para pensar em todos os erros cometidos. Havia tempo para pensar em ti, nas comodidades domésticas da menina que pela manhã escova o longo cabelo castanho ao espelho, ri sem forçar as linhas da pele, escolhe o vestido para combinar com a cor do céu e calça os sapatos que o chão galanteia.

Depois retornava ali. Os confortes da serra servem de gengiva de aço a segurar os dentes rochosos que recortam o céu, embranquecidos pela neve que reluz o gelo. Ao lado, os terrenos de mimosas expiram a embriaguez da natureza, sopram na brisa o cio que liberta Diónisos da razão e macula a pureza das bacantes.

O trânsito é escasso. Fumo um cigarro. Um par de milhafres sobrevoa a estrada. Ocorre-me a ideia de que um tipo pode dar a volta ao mundo, experimentar os colchões dos quartos dos hotéis mais famosos e dispendiosos, sentir o conforto, a ciência das molas a funcionar, a tecnologia dos tecidos a deliciar o tato, pois todo esse progresso não apaga o prazer da cama de palha que tínhamos no celeiro. A verdade é que os olfatos mais inspirados não conseguiram trazer dos tubos de ensaio do laboratório um ambientador que se compare ao odor da secura estival da palha. Viajar à boleia tem a necessidade, a rebeldia, o outrora, o prazer do risco, que preenche os sonhos desses sonos que dormíamos no celeiro quando eramos miúdos.

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Perdi-me de ti. (15.05.2015)

Sabias a domingos repetidos na mesa de família, à sensação de humidade a insinuar a luxúria que escorre da intimidade e alastra pelas paredes da casa, ao odor a bolor fixado nas axilas dos fungos, ao peixe cansado de esperar no frigorífico, que nenhum tempero consegue disfarçar o cheiro a morte.

O morango que habitava na língua desmaiou o Verão que nele pressentia, desfez-se no fio de saliva, beijava o charco de águas insalubres e os lábios anémicos reanimados pelo baton para refletir os néon das avenidas no sábado à noite.

Antes queria despir-te as roupas que não sabias escolher, que vestiam a personagem errada, o músico de orquestra que trocou o fato escuro pelas cores psicadélicas dos têxteis, à maneira de um cantor reggae.

Nunca percebemos as pessoas que poupam no amor, que o consultam no saldo na caderneta bancária, que o regateiam na praça, a fazer baixar o preço das maçãs. Essa gente que faz gráficos das afeições, relatórios de balanço, contas que subtraem aos dias a excitação da novidade, uma vista da cidade descoberta do terraço, o prazer do vinho a namorar o céu-da-boca, uma viagem inesperada por caminhos secundários apenas para colher amoras.

O tédio é o pedreiro desajeitado que anda pela nossa cara a esburacar a pele sem cuidado, a fazer as rugas mais fundas e feias, as que gritam com dor. Dizem que a monotonia se pode ver na bailarina que rodopia ao jeito do pião que não desfaz o movimento. É a expressão eterna de uma boneca de plástico. Uma ida e volta diária, um circuito mecânico, um símio preso pela trela que vai e vem na jaula.

Não te ouvem um berro, uma fúria ou um deleite gritados, uma paixão dita em voz alta. Parece que há uma ordem para falar baixinho, não vá o equilíbrio celeste desalinhar-se com a vibração acústica. Garantido o sustento, que indiferença para tudo. Nenhuma luta, nenhuma guerra, nenhuma trincheira ocupada, nenhuma bandeira na mão. Sem rebeldia, sem causas.

Viajas sobre uma carpete que não devolve o som dos passos e mantém os sapatos limpos. Fora desse perímetro há um universo de sons, da gravilha, da terra, do alcatrão, de materiais que desgastam o calçado, que o sujam, que desarticulam os nervos na medida em que os surpreendem. Os sentidos também falam várias línguas se as quiserem aprender.

Perdi-me de ti. Não sei em que rua. Não sei do calor dos teus dedos. Trocámos os horários, uma confusão qualquer com os transportes. A ti convinha-te fazer assim, ficar por ali, não trocar o certo e o seguro por uma ilusão. Os sonos com pesadelos são tão compensadores como os dias que detestamos. Ao acordar trazem na manchete a ideia desesperante da oportunidade perdida. Um fósforo que se apagou antes de despertar o fogo. Se é verdade que os sonhos nascem da realidade vivida, das alegrias, dos receios, das ambições e das repulsas, podemos melhorá-los, adoçá-los com açúcar, incluir na massa as especiarias desejadas.

Precisamos do risco, das transgressões, da embriaguez, para manter o sorriso que as fotografias antigas mostram. Sorrir como ato de desdém, a erguer um gesto obsceno para a morte. Levantar aquele dedo para lhe dizer que é preciso ter calma, ainda temos que fazer, refletir sobre um epitáfio adequado que a respeite.

Hoje as flores estavam murchas. Suicidadas, sem bilhete que explicasse o desapego. A displicência do jardineiro ficará associada à certidão de óbito, uma linha expositiva na história. Ou teria sido apenas uma vingança contra a opressão da rotina. Ou, ainda, como dúvida, a súbita perda de fé e um assomo do racionalismo cruel que declara que, para a maioria dos efeitos, tanto vale hoje como amanhã, tudo depende da velocidade a que se queira fazer a curva em que deixamos de ser vistos.

Estou em crer que a melancolia não sai com uma lavagem ao estômago, tão pouco será um vício perdido na clínica de reabilitação, nem haverá fisioterapia para dar novo corpo, retirando as artroses, para que o espírito caminhe insensível às dores experimentadas.

Um extremo de lucidez que se quer deixar enganar, que ambiciona ser como o gato que brinca na rua, mas está demasiado consciente de si, exageradamente preocupado com a roda trucidante do tempo.

Por isso, acabou o prazo para as desculpas, para os equívocos, para os períodos, para essa crueldade de ficar à chuva e ao frio, na noite de tempestade, porque temes que possa molhar o chão da casa.

Check out na pensão, um bom dia tossido ao balcão, a sineta da porta a tilintar, a mochila colada às costas, caminhar ao lado dos carris do comboio, no sentido do poente. A perder-me de ti.

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A lamparina do Zé Augusto, de Aveiro.*

Era fácil gostar do senhor José Augusto, desse género de facilidade que gera amizades por mera intuição, porque era simples, afetuoso e modesto, humildade inseparável, mesmo com os elogios mais adjetivados. Por isso, a partida de Zé Augusto, nome de guerra inscrito nas obras como a da imagem, foi e é difícil de aceitar, porque sempre desejamos que a espécie de homens que têm um coração maior do que o corpo perdure e faça parte dos encontros prováveis do dia-a-dia.
O íntimo bom de Zé Augusto era a casa que sempre apreciaremos visitar, pois nela residia um amor incondicional e infindo por Aveiro, pelos aveirenses, pelo qual nos sentimos francamente privilegiados e muito nos orgulhamos por nos ter sido dedicado nas obras de arte realizadas.
Zé Augusto verteu as imagens típicas dos aveirenses nas suas figuras. Enquanto existirem, tornam duradouras as imagens que nos distinguem. Haverá, neste registo, uma sensação de ganhar posteridade, a identidade singular aveirense aproxima-se da eternidade. Sabemos estar representados nas suas peças. Não o ‘nós’ de exatamente hoje, globalizados no vestuário e nos adereços. Outrossim esse ‘nós’ que usava o gabão e transportava o ramo.
As figuras desenhadas por Zé Augusto vestem as roupagens da história da comunidade que somos, talhada para as artes da pesca e as do sal, laboriosa, festiva e devota. Os seus bonecos trajam a tradição que permitiu a sobrevivência deste povo que respira maresia, cuja vida balançou conforme o sortilégio da natureza, de acordo com o capricho da barra, que ora se abria à prosperidade, ora se fechava e condenava às duras penas da fome, da doença e, no extremo, à mortandade.
A oficina, ali em São Bernardo, foi uma bonita maternidade da arte, lá nasceram cores, traços, desenhos, formas, enfim, conheceram a luz filhos que ilustram a laguna e as suas gentes. Foi, também, o estúdio incubador da imaginação, dos momentos criativos que antecedem o lançar da mão à obra e que moram nessas nuvens de esperança a que chamamos sonhos.
Todos os tempos têm um espírito, Zé Augusto exprimiu esse que nós reconhecemos em Aveiro, porventura o que mitificámos, mas que, em qualquer circunstância, mais ou menos fantasista, é o que nos une e serve de elo para sentirmos a comunidade.
Ainda há pouco José Augusto estava entre nós, debaixo da mesma e magnífica abóboda celeste, litoral, atlântica. Alumiado por esta luz, que amava, tão pura que na alquimia visual transforma os grãos de sal em pedras preciosas. Aqui estava, connosco, saboreando este céu lagunar, cuja planura acentua e expande a sensação de liberdade.
Zé Augusto dispôs da faculdade que os deuses costumam reservar para si, a de criar vidas, enredos, narrativas. As figuras do Zé Augusto são personagens. Interpretamos, olhando-as, emoções e sentimentos, pressentimos-lhes a gentileza, o garbo e a graça. Podemos perceber a idade, a pele tisnada pelos dias soalheiros e termos a ventura de adivinhar o engelho provocado pela força do vento norte. As figuras juntas parecem que conversam entre si, manifestam a sua expressão, têm uma fisionomia que diria discursiva. A varina, o fogueteiro, o marnoto, o parceiro e a parceira do Ramo, são algumas das figuras da galeria encantada de Aveiro, moldadas pelas mãos do criador.
Zé Augusto será recordado pela ‘argilidade’, perdoe-se o neologismo, que pretende significar, resumindo, a admirável agilidade criativa conjugada com a excelência do trabalho com a argila.
A sua argilidade deixou-nos como herança um manual ilustrado de história, bem como a capacidade de adiarmos a efemeridade que tem a força da rasura sobre o pretérito e que o condena ao desaparecimento. Este legado representa o fortalecimento das raízes que sustentam o crescimento e o porte de uma cidade. Ele mantém-nos atidos ao caminho por onde viemos, para melhor saber por onde e para que lugar vamos.
Aveiro está muito, estará quase todo, nas peças do Zé Augusto. Na bonomia e na paz com que saudou a Padroeira da cidade, Santa Joana Princesa. Na formosura
e na jovialidade atribuídos ao rico São Gonçalinho. Na elegância da mulher aveirense, bem vista, por exemplo, a vendedeira de ovos-moles. Tantos outros casos poderiam ser acrescidos.
Quis a força do destino que o seu derradeiro trabalho fosse a criação de uma lamparina, encomenda da Mordomia de São Gonçalinho 2013-2014. A peça representa o hemisfério, assim dito dada a geometria do objeto, que Zé Augusto povoou com mestria: nele se encontram São Gonçalinho, a Capela em que se presta culto ao Santo, as proas dos barcos moliceiros, as aves e o céu de Aveiro, as marinhas de sal, os palheiros, a urbe, a ria que se percebe nos muros e o povo em festa. Quis o destino, pois, com a habitual ironia, que Zé Augusto se despedisse de nós, homenageando tudo o que entreviu e amou no que é próprio a Aveiro.
Pouco ou nada podemos para driblar o destino, para chegarmos primeiro que ele. Mas podemos, sempre que possamos e queiramos, manifestar gratidão a quem, como o senhor José Augusto, com a simpatia costumeira e com o trabalho, a sua extraordinária obra, nos concedeu dias mais bonitos. Obrigado Zé Augusto.
*Texto publicado, no essencial, no DA Diário de Aveiro.

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